Deitava e começava a pensar nos orgasmos dela. Ela gozava com uma liberdade que ele jamais teria. Enquanto a observava gemendo em êxtase, sentia-se hipnotizado, marujo atraído pelo canto da sereia. Era difícil entender que tinha sido ele o causador de tamanho prazer. Ele, sufocado pela gravata e pelos gritos do chefe. Igual à multidão de engomadinhos que se arrastava pela cidade.Comum, até mesmo nas neuroses e fantasias. Ela, com seu andar de dona do mundo, pertencia e não pertencia a lugar nenhum. Uma mulher com um cheiro e gosto diferentes, exóticos, intoxicantes. Fêmea,maior que a cidade. Depois do sexo levantava-se bruscamente, como se tivesse acordado de um sonho ruim, e ficava em pé, nua, fumando contra a janela.Poderia matá-lo, se quisesse. Partir seu corpo amarelado em pedacinhos, e saboreá-lo no almoço, que ele não iria se opor, talvez até ajudasse, guiando a faca. Ah,quanto poder ela tinha! E ele assustado e fascinado, seguia feito um zumbi o calendário de dias sem ela, voltando a sua condição de humano e presa, assim que ouvia do outro lado da linha o imperativo ‘Venha hoje!’.
Naquela tarde abafada, dirigiu-se feito soldado convocado para o local combinado. No caminho, pessoas pisando gelatinosas as ruas, semi –vivas ,quase-mortas. Parou numa joalheria e quis comprar um colar para a amante. Sentiu-se fracassado pois não poderia pagar pelo modelo que achou mais adequado à sua Vênus. Na esquina seguinte, num impulso de adolescente apaixonado, comprou um ramalhete simplezinho de floreszinhas pequenininhas. Andava revigorado, meio aéreo, confiante. Conferiu a hora: estava atrasado. Ah,mas foi por causa do presentinho, ela entenderia. Dispensou o elevador que demorava e subiu ofegante pelas escadas. Com o coração acelerado e a boca salivando, pôs a mão na maçaneta da porta, que deveria estar destrancada, como de praxe. Sentindo uma resistência, estranhou. Sabendo que a amante condenaria qualquer alarde, e imaginando que aquilo fosse parte da brincadeira do dia, deu um risinho e forçou a porta. Nada. Bateu,de leve,chamando. Nada, nem um som vindo do quarto. Preocupado, chamou mais uma vez,a voz se alterando, teria esquecido do encontro? Não, ela jamais faria isso. Lembrou-se de um truque que vira num desses seriados americanos e retirando um clipe da pasta, tentou, em vão, destrancar a porta. Chamava agora seu nome com insistência. Alto.Claro.
-Abre logo,porra!!!
Sem resposta, vermelho de raiva e vergonha, suando muito, procedeu ao arrombamento. Forçou o ombro contra a porta,sem sucesso. Gritando por ela, passou aos pontapés. Nenhuma alma naquele hotel barato surgiu para aliviá-lo ou atrapalhá-lo. De um impulso, jogou-se com toda a força e a porta cedeu. Do quarto um bafo quente e uma escuridão pegajosa. Entrando com cuidado, acendou o interruptor. Revelou-se a cena grotesca: jogado na cama,jazia o corpo ensagüentado da amante. No criado mudo, giletes usadas, uma garrafa vazia de conhaque. Pôs os olhos pela última vez naqueles olhos de gata. E fechando-os delicadamente, deixou-se cair sobre o ventre da amada,soluçando. Lá fora a rua rugia, ameaçadora.
quinta-feira, 30 de abril de 2009
sexta-feira, 3 de abril de 2009
Essa urgência.Constante estado de alerta.Fuck me right now, I’m yours. Ia e se diluía em suor,diminuindo a cada orgasmo. Ficava uma parte com ele. Parte,partícula,gota,fluídos. Em cada lugar,em todo lugar, a possibilidade. Posse. Encontros. Fugia o tempo em minutos de gemidos, suspiros, monossílbos exaltados. Para que saber de mais? Demais. Os corpos sempre pareciam se entender, como se seguissem um roteiro pré- escrito. Uma história além,anterior. Take me,and leave. O agora vale mais. O depois? Talvez fosse parte do roteiro,talvez não. Ela gostava dele porque ele lhe dava uma prazer simples: as bolhinhas do champagne fazendo cócegas na ponta do nariz. Orgânico,natural. Ele gostava dela porque ela o enlouquecia. Vivia sonhando sua presença em cada virada de esquina. Cabeça a mil. Cabeça a prêmio? Cortadinha na bandeja,para agradar madame. You can always have me,baby. O amanhã? Um raio de sol lambendo a alva cortina. A luz forte do dia revelando as olheiras do insone.