Cheirou a flor com reverência
Na manhã clara e insuspeita
E curvando-se de forma a ocultar a intenção
Arrancou-a com força só porque ela
Havia acabado de abrir todas as pétalas
sexta-feira, 27 de junho de 2008
quarta-feira, 25 de junho de 2008
domingo, 22 de junho de 2008
terça-feira, 17 de junho de 2008
segunda-feira, 16 de junho de 2008
Voyeur
Ele tinha cheiro de sonho.Daqueles que se repetem,e que guardamos,em segredo.Todos os dias passava por mim e me dirigia um educado sorriso como cumprimento.Saía sempre apressado,com os pretos cabelos molhados e bem penteados,a pasta numa das mãos,a outra ocupada em terminar de vestir o paletó.Entrava no carro e abria um sorriso infantil assim que ligava o som.Quase sempre ouvia jazz,mas nos dias em que ouvia Chico Buarque,uma sombra lhe cobria o rosto,e seguia calado.Tinha um rosto bonito,de romântico dos anos 20,com olheiras que tentava disfarçar com óculos escuros.Vivia só,e tinha um aquário cheio de peixinhos coloridos.Passava a maior parte do dia fora e quando chegava do trabalho,trazia um cansaço maior que ele,que eu percebia,quando o via desabar na poltrona da sala.Ficava sentado,na penumbra,por longos minutos,em silêncio.Então,como se acordasse,sacudia a cabeça,tirava os sapatos e começava a ligar todas as luzes.Jantava pouco.Abria a pasta e espalhava arquivos de papelão pela mesa de vidro.Escolhia um ou dois,levava para o quarto e os lia,madrugada adentro.Acordava cedo,e ia beber café na varanda,olhando distraído o céu fresco da manhã.E assim vivia seus dias.Devia ter alguma vida secreta,um amor mal(ou bem)resolvido,quem sabe uma família que deixou pra trás numa cidadezinha do interior,ou um crime que cometeu em outro país.Era um homem diferente de todos os outros que havia visto até então.E talvez por isso,dedicasse a ele horas de inocente voyeurismo.Queria descobrir a senha para entrar naquele mundo só dele,mas estava tudo tão fechado e guardado,que me parecia que nem ele sabia mais como sair.
terça-feira, 10 de junho de 2008
Lá dentro (res)surge.Dorme,vaga,testa o terreno.Reconhece os arredores,já esteve ali antes.Cresce,se estabelece.Alimenta-se e espera.De repente,é hora.A vida girou,o relógio (tique taque tique taque)apressa.Não podendo mais se esconder,rompe os limites.Tateando,um olho aqui,outro acolá,se arrisca,mas devagar.Nasceu.Renasceu.De novo,pra frente.Virar a página,trocar o disco.Sorriso novo,olhar perdido no horizonte,cabeça fervilhando de idéias.Voltou.Voltei.Voltamos.
quinta-feira, 5 de junho de 2008
O cheiro que incita desejos
Entra por todas as frestas
Calada e contrita,a freira reza com grande fervor
Mas o cheiro que invade permanece
O mundo lá fora não parou
E mesmo na clausura,protegida das tentações visíveis
Contra as invisíveis,não há oração
Por mais que tente,é por elas que pulsa seu religioso coração
Entra por todas as frestas
Calada e contrita,a freira reza com grande fervor
Mas o cheiro que invade permanece
O mundo lá fora não parou
E mesmo na clausura,protegida das tentações visíveis
Contra as invisíveis,não há oração
Por mais que tente,é por elas que pulsa seu religioso coração
domingo, 1 de junho de 2008
Cinza
Os dias cinza,e eu também.Tenho escondido tristezas e distribuido falsos sorrisos.A alegria,quando há,é pouca e contida.É a vida ou sou eu que não estamos sendo gentis comigo mesma?Acho que os dois,infelizmente.Como bem disse Clarice,eu me persigo e nem sempre o ambiente aqui dentro é amistoso.Como se as várias Clarissas(a menina,a mulher,a que censura,a que se permite,a que envelheceu,a que sonha) estivessem numa briga constante,sem mediação de juiz,e já entrando na prorrogação.Tenho andado confusa.Preciso de mimo,de atençao,de afabilidade.Estou cansada de relações desgastadas,do jogo que tem tido mais tentativas e erros que acertos,de mim,da que me olha no espelho.Talvez amanhã eu acorde depois de um sonho bom e o dia me receba com um brilho no olhar.Talvez eu durma mal e fique mastigando sabores já azedos,prolongando o mal vivido.Esperando que tudo melhore,sento aqui e escrevo,porque as palavras,essas sim,generosas,mesmo que momentaneamente,me libertam.
