terça-feira, 30 de outubro de 2007

Reclame

Reclame mudo solto na noite.Quero mais.Olhares e provocações não me servem.Platonismo é coisa de adolescente.Sexo casual,embora potencialmente prazeroso,não me preenche.Não me ofereçam o pouco,o superficial,o que dura apenas poucas horas.Quero o que medos,muros,defesas,acomodações e solidões preenchidas com deleites ocasionais escondem.Quero o real,o doce,o divino,o mel,a pérola da concha,o profundo,o que não se esvai quando a noite acaba.
Quero sentir,dar,receber,rir,esperar,encontrar,ter saudade,achar que perdi e encontrar de novo.Quero o possível,o ao alcance,o simples,mas o verdadeiro.Quero muito mais.Quero e peço,silenciosamente.E continuo aguardando,confiando no que está por vir.E que seja mais,melhor e muito e constante e perene.

sábado, 27 de outubro de 2007

Não ser.Não sentir.Passar os dias na serenidade do não conhecer.Não saber e por não saber,não sentir falta.Não viver.Não perceber as sutilezas escondidas em sorrisos,gestos,olhares.Não diferenciar céu azul de céu fechado.Não se alegrar com a grandeza do crepúsculo.Não se emocionar com o nascer do sol.Não se impressionar com a força das marés.Não saber ler as entrelinhas dos dizeres,dos discursos.Não se embriagar com os aromas,perfumes diversos.Não indagar.Não questionar.Não ver as flores que nascem nos jardins das redondezas.Não notar que do dia veio a noite e depois veio o dia.Equivocar-se e achar que tudo é cinza,tudo é negativo,tudo é não.Não crer na possibilidade do sim.Não esperar.Não acreditar nas mudanças,nas transformaçoes,nos ciclos da vida,no renascimento,na criação,na destruição e na renovação.Mal viver.Existir,apenas.De tantos caminhos,escolher esse só se for por desespero.Melhor é arrepiar-se com cheiros,trocar carícias,desejar contatos e encontros,amargar e superar desencontros .Melhor é provar da fruta,do sumo e até do caroço,deliciar-se com cores e sabores,perder-se na diversidade que atiça os sentidos.Mesmo que tudo se confunda,desande e azede depois.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Noite

Noites longas,de lua cintilante e céu estrelado.Noites curtas,de céu nublado e lua escondida.As noites sou mais do que sou durante o dia.O escuro,o luar que ilumina até frestas de janelas,o ar aromatizado de cansaços,segredos e desejos,o céu plácido,o vento discreto que acaricia as folhas e os lençóis nos varais,a noite me acolhe.A noite me recebe,me acalenta,me reconhece como irmã.A noite me autoriza e me acoberta,e então me revelo.Haja ou não companhia ou platéia,me desnudo discretamente,as pétalas se abrem,as asas se espraiam.A noite então me alimenta,me renova.Meus quereres,minhas idéias,meus sonhos,meus mais secretos desejos surgem,se renovam ou são criados.O que é velho é renovado,o que é novo é bem recebido.A noite é minha cúmplice,minha companheira e nunca me abandona ou decepciona.A noite transforma,conduz,induz,indica,realça,revela.A noite é poderosa,traz a tona os verdadeiros eus que durante o dia se escondem atrás de gravatas,vestidos formais,uniformes.A noite,inflamados ou não pelo alcool,somos senhores de nosso engenho,reis e rainhas do reino que criamos durante o dia.Por isso,recebo sempre as noites com reverência,sabendo que o que a noite mostra dia nenhum revelaria.

sábado, 20 de outubro de 2007

Insano cotidiano

Parece que nos acostumamos às desgraças cotidianas.Vamos seguindo a vida como cordeirinhos que aceitam tanto o afago como a pancada do cajado do pastor.O que antes chocava hoje é apenas mais uma notícia pálida,estará no lixo da memória no dia seguinte.A indiferença cresce com a velocidade dos acontecimentos.Somente as dores próprias,particulares incomodam.Hoje não é o mais forte que sobrevive,e sim o que tem mais sorte ou o que é o mais esperto.Somos bombardeados por informação variada,e atordoados,preferimos dar atenção a manchetes fúteis,referentes a relacionamentos de celebridades.Isolados,o que mostramos aos outros é apenas a ponta do iceberg, pois nos guardamos,presos,em nossos condominios,fechados em nossas casas gradeadas.Solitários,mas não solidários.Perdidos,tentamos atender às demandas insanas de uma sociedade que nos quer como produtos,como números,e não como indivíduos.O futuro é uma incógnita,mas preferimos pensar que será um futuro próspero,que seremos gordos proprietários de bens e imóveis.E de dentro das casas cercadas e dos prédios bem guardados,interagimos indefesos com o mundo,como o passarinho que,ainda que abram sua gaiola,não consegue mais voar.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

One fine night

Doce acaso os uniu naquela noite.Mais um na imensa multidão,ele acabou sendo a cereja no topo do sorvete.A boa e inesperada surpresa.Depois de apreciar o grande show que tanto esperava,ela olhou para trás,instintivamente,como que procurando sem procurar,e encontrou ele lá,disponível e disposto.O sorriso trocado foi a senha,o sinal verde e logo estavam juntos,ele a protegendo do aglomerado de gente parecia que a estava guardando dos males do mundo.Ela deixou-se levar.Lembrou,até com certa tristeza,que amanhã deixaria aquela cidade,então tudo que tinham era aquela noite.E a noite foi mais do que suficiente para que dessem e recebessem um do outro o que desejavam.E horas depois se despediram,sabendo que nunca mais se veriam e isso não era necessariamente ruim,pois certos encontros são feitos para durar pouco.Já no avião,voltando pra casa,ela sorria externa e internamente,como criança que tinha sido bem sucedida na sua travessura.A viagem,afinal, acabou rendendo mais lembranças do que o esperado.

domingo, 14 de outubro de 2007

Desejo

Tocar.Sentir.Embriagar-se com o cheiro que a pele exala.O gosto na boca,que fica,depois,por horas.É doce o gosto da boca,é salgada a pele beijada palmo a palmo,com reverência.Ofegante a respiração,os dedos ansiosos correm pelos cabelos,se fecham em torno da nuca.Olho no olho,as almas se revelam tímidas,mesmo sem querer.Sorriso.Abraços apertados.Corpo a corpo.Minutos que viram horas,sem que se dê conta.Dois em um,um no outro,coração bate no mesmo compasso.Beijos curtos,longos,beijos que afogam,que afagam,que instigam,que saciam.Roupas desnecessárias,que são jogadas displicentemente ao redor.Corpos no encaixe ideal,o prazer se expande,se contrai,se expande ao infinito.Carícias de mãos que procuram,que encontram,que agarram,que alisam,que tocam e que agarram de novo.Côncavos e convexos,encaixes,pressão,compressão,força,delicadeza,movimentos sincronizados,respirar é necessário.E de repente,então,o mundo em suspenso,braços que se seguram,bocas que se encontram agradecidas,silêncio,o prazer vem e dura,e fica.Descanso.Dois a se olhar,compreendendo.Lá fora a roda da vida volta a girar.Ali,na cama,os dois,satisfação no rosto,se aconchegam,sem pensar no que virá depois.

sábado, 13 de outubro de 2007

On my own

Sozinha.Sozinha mesmo no meio de uma multidão.Sozinha até entre amigos.Somos eu e eu contra o mundo.Não que o mundo seja muito cruel e eu muito boa,apenas o mundo é muito grande e eu muito pequena.O que muitos fazem com um passo,eu faço com dois,três ou mais.O que muitos conseguem em um minuto,eu consigo só depois de cinco,dez,vinte.Então sou vista como muito forte,ou então muito frágil.Outros me acham muito arisca,muito complicada,alguns me acham boba,inofensiva.E eu sou isso tudo e mais.Nem eu sei tudo o que eu sou,estou indo,não fui ainda(ainda bem).Mas de vez em quando me incomoda essa minha pequenez,essa sensação de que minhas duas mãos não são suficientes para abraçar a vida.E se eu continuar nesse passo de tartaruga e ficar irremediavelmente para trás?Mas é que não posso correr.Tenho que seguir assim,devagar.Mas nem sempre sou suficiente.Preciso de outras mãos com as minhas.Gostaria de alguém para caminhar comigo no meu ritmo lento e no meu seguir torto.Desejos,quereres,sonhos.Nunca nos abandonam.Certos dias o que mais nos falta dói mais,como que para nos lembrar do que está faltando.Hoje quis,e mais uma vez não tive,não tenho,não tinha.Terei?Quem sabe.Lá em cima, o grande mágico brinca com sua varinha.Que me conceda apenas o desejo mais sincero e mais profundo do meu coração,e logo.Pois me parece que cada vez mais o mundo aumenta,se agiganta eu eu,no entanto,diminuo.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Amanhã é 26




Amanhã completo 26 anos de idade.26 primaveras?Não,que a flor não vive só de sol,pra crescer forte precisa de chuva,vento,frio,sereno.26 giros.26 piruetas da bailarina.Totalmente adulta?Dificilmente.Pois me sorri do espelho a mesma menina que gostava de brincar de boneca e de faz de conta.26.Logo serão 30.Nossa,o tempo às vezes me parece mais inimigo que amigo.Mas que venham os 30,os 40,os 50 e muitos
mais,que me esforçarei pra não perder esse espanto infantil,essa admiração inocente que tenho pela vida,pelo que os dias trazem e as noites revelam.26.O relógio corre,a vida segue.Mas amanhã será um dia especial.Pois amanhã renascerei,amanhã serei mais do que sou hoje,mais do que fui,porém menos que serei,talvez.Amanhã é um novo dia,começa,para mim,um novo ciclo.Recebo então gratificada o amanhã.É tempo de celebrar,tempo de comemorar,tempo,enfim,de viver mais.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Fim de caso

O disco terminou de rodar.A agulha da vitrola enganchou.O barullho irritante quebrou o silêncio de velório que havia se instalado entre eles.Ela se levantou,tirou o disco,desligou a vitrola e olhou para ele,em expectativa.Mas ele não disse nada.Apenas mexeu e remexeu nas pedras de gelo que derretem no copo na sua sempre presente dose de whisky.Impaciente,ela se movimentou pela sala.Ajeitou a toalha da mesa,trocou o vaso de plantas de lugar,recolheu o cinzeiro,foi a cozinha,voltou e nada.Ele continuava lá,parado,agora olhando fixamente para seu copo.Ela não resiste,e tenta de novo.Senta-se a seu lado no sofá e começa a acariciar seus cabelos.Ele recua.Ela então tenta pegar sua mão.Ele se retrai.Ela sabe que ele,na verdade,não quer mais estar ali,e se está ainda é por medo que ela,ao se ver sem ele,cometa alguma das loucuras que ja cometera antes.Disfarçando as lágrimas que começam a cair,ela tira o copo da mão dele e diz que ele pode ir.Confirmou que não há mais nada.Assustado,ele olha para ela como se não a reconhecesse.Ela,com uma calma incomum,diz pausadamente:
-Não,eu não vou sangrar.Talvez chore um pouco,mas só um pouco.Vá e não volte.Não há mais espaço pra vc, nem nessa casa,nem em mim.
Ele riu.Pegou o casaco,olhou para ela com ares de dono.Saiu pisando firme,na certeza de que,ainda naquela mesma noite,ela,desesperada,ligaria.Mas ela nunca mais ligou.
E ele,orgulho de macho ferido,pastor que perde a ovelha favorita do rebanho,foi quem ligou.E ela,senhora de si,disse não,e depois não de novo.Outro dia a viu,batom vermelho,vestido novo,saindo do cinema com outro homem.E foi então que ele percebeu que era tarde demais.