segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Efêmero

Rápido.Que passa numa batida de coração,num trocar de pensamento,num desviar. Mas que faz ligar uma luzinha lá dentro,uma reação, que ilumina o rosto,que faz os olhos sorrirem,ou que faz franzir a testa, baixar a cabeça,nublar o olhar. Causa impacto,sempre,mesmo que tal impacto só surja quando se está prestes a dormir,e se faz a revisão do dia. A rotina é efêmera, a vida passa tão rápido que parece querer comer a própria vida, leão espreitando e salivando atrás da presa. São os momentos,esses sim,que costurando-se um ao outro,vão formando o que vivemos e o que é hoje,para não ser amanhã ou para ser mais do hoje,ou para ser inteiramente diferente do que era há três dias. Estou divagando(e muito),relembrando os efêmeros mais recentes,e para concluir a noção de que nos efêmeros está(também) a graça,a dor,a riqueza da vida,me vem um olhar cansado e curioso,vindo de olhinhos pretinhos e brilhantes de um menininho muito bonitinho,que,exausto da viagem, se virou para mim e apesar de ser ainda muito novinho,trocou comigo um olhar de compreensão.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

E de tanto andar de máscara,um eu cima do eu,ao passar em frente ao espelho,não reconheceu mais nem o personagem.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

O homem do agasalho

Chova ou faça sol,esse senhor introspectivo anda sempre com um agasalho jogado sobre os ombros e costas.Ainda outro dia o vi,nesse calor do Saara que anda fazendo aqui,entrando no prédio,calça social,camisa de mangas compridas e o eterno agasalho. Mesmo aos domingos,dia universal do descanso, sua informalidade consiste em trocar as calças por bermudas,a camisa de mangas compridas,por outra de mangas curtas,mas o agasalho,este não é jamais dispensado,continua lá.
Se eu fosse fazer um exercício de imaginação sem censura,como fazemos quando somos crianças,poderia pensar,com a minha cabecinha fértil de idéias mirabolantes,que o agasalho faz parte de um disfarce,e assim o bigode,a barba e os óculos de aros grossos seriam também parte dessa sua tentativa de ocultar sua identidade secreta.Ou o agasalho teria embutidos microfones e câmeras e comunicadores a distância,e,por isso,ele o usaria sempre,para manter seus superiores informados sobre suas atividades como agente secreto. Mas meus olhos não mais olham o mundo com a criatividade solta infantil(infelizmente)e só posso pensar em justificativas nada animadoras para o uso constante do agasalho. O agasalho seria lembrança de outros tempos,de tempos bons,foi presente de um amor,ou de um parente querido,e ele hoje sendo,como me parece,solitário,usa o acessório como uma forma de não enlouquecer nessa terra inamistosa,para lembrar-se que foi amado,e amou,e viveu.
Talvez não seja nada tão mirabolante,e use o agasalho porque sente frio,simplesmente.Um frio que independe das condições climáticas e que varia e surge devido a variações internas de humor. Sabe que estranham que use sempre o agasalho, mesmo nos dias mais quentes, mas se não usasse,poderia se sentir desprotegido. Ou o agasalho virou tão parte dele,parte da persona que é reconhecida nos círculos que frequenta, que não usá-lo equivaleria a não ser quem ele é. Ah,na verdade não importa porque usa o agasalho. Talvez seja um homem bem calmo e feliz,apenas agasalhado demais. Mas não consigo não associar tristeza e abandono quando o vejo,caminhando bem devagar,e em silêncio,o agasalho quase um escudo contra o mundo.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Os amantes

A língua percorre um caminho já conhecido,e mesmo assim,saboreia cada curva,relevo,planície,declive...O corpo suspira,receptivo.Tendo andando e provado,a língua sai de cena,e dá lugar às mãos,que tateiam,apalpam,pegam,quase com raiva,quase como se fossem deixar cair o que têm,seguro,que preenche e incita.Já não há mais resistência,e se reconhecendo,e se permitindo,os dois corpos se encaixam,em sintonia.Às vezes um samba,outras vezes um rock,às vezes um tango,um fado,um lamento.Os olhos se fecham,para que se percam não só um no outro,mas em si mesmos,dentro daquilo que mais desejam,e que não revelam de todo,feito a ponta de um iceberg que vaga num mar junto dos outros,alguns mostrando-se mais,outros menos...Os amantes se dão.Saliva,suor,sémen,lágrima.E o que começa nem sempre é o mesmo que termina.E o que outrora se abriu,se fecha.Lacrados,em conchas,que a maré leva e traz. Voltam às suas respectivas vidas,ao que existe fora do que existe,quando eles existem,ali,só pra eles.Despedem-se,não mais despidos,mas sim totalmente vestidos,do que são,quando não mais são,ou estão juntos.E os olhos não mais se encaram,porque estão de novo ocupados em olhar para outras direções.