terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

“De sonho não se vive” disse o velho sentado no batente, à moça de olhos molhados. Pigarreando, o velho continuou o discurso, enquanto, olhando para lugar nenhum, perdida em paisagens interiores, a moça meditava. Na esquina, alguém batia um tapete na janela. Na calçada oposta, uma mãe fazia tranças no cabelo da filha inquieta. O tempo escorregava preguiçoso, naquela cidade a que fora ‘espairecer’, como tinha sugerido a mãe. O velho repetiu a frase sobre sonhos, dessa vez já de pé, segurando no seu braço, como se a estivesse alertando sobre um grande perigo. A moça apenas sorriu, uma reação inesperada, dada a seriedade do velho, e à situação úmida dos seus olhos. Antes de voltar à casa, porém, refletiu. O velho tinha razão. De sonho não se vive, mas também não se foge.