quarta-feira, 28 de novembro de 2007
Pequenas descobertas
Entrei devagar no quarto e confirmei,satisfeita,que minha mãe havia saído.Devia ter então cinco ou seis anos,e já me considerava muito independente e muito esperta.Sorrindo,me aproximei do grande e imponente guarda-roupas.Ao abrir as portas que continham os pertences de mamãe,recebi uma lufada do seu cheiro doce e suave.E vi,organizados cuidadosamente,todos os itens que ela usava e que tanto me fascinavam.Roupas coloridas e argolas douradas gigantes.Batons vermelhos,sombras em cores gritantes,cintos e pulseiras extravagantes.Colares e echarpes finas.Lembro que hesitei alguns segundos,e então,posicionada em frente ao espelho,comecei a brincar de me transformar em mulher.Coloquei uma blusa com ombreiras estampada que serviu como um vestido.Com uma echarpe improvisei uma tiara.Nos braços finos de menina asmática,as muitas pulseiras pesaram.Meus pés pareciam ainda menores nos sapatos vermelhos de saltos altíssimos.Lembro que pus as mãos na cintura e fiz pose em frente ao espelho e me achei muito bonita e muito elegante.Colori os olhos com sombra verde e os lábios com o batom mais vermelho que encontrei.Escolhi uma das várias bolsas,me admirei mais uma vez em frente ao espelho,desfilei para ninguém,sentei na cama e esperei.Não,nada de diferente me aconteceu quando me vesti de mulher.Não fui contaminada pela seriedade da vida adulta.Nada me foi revelado.O mundo continuava o mesmo.Cansada da brincadeira,e um tanto decepcionada,retirei a maquiagem e dispensei os adereços.Fazia sol e eu queria tomar banho na piscina de plástico que papai havia colocado no jardim.Deixei o quarto,e fui continuar com minha vida de menina.
terça-feira, 27 de novembro de 2007
Porto
Amanhecia.Trocaram um olhar sem promessas.Embora já vestida,ela ainda se sentia nua na frente dele.Vulnerável,o sorriso escondia a melancolia que estava por vir,ela sabia que ele não voltaria.Ele,senhor das situações,despreocupado,já se despedia.Ela recebia resignada os últimos beijos.Parecia que seu destino era ser um porto,aonde os homens atracavam em épocas de tempestade ou bonança,para logo zarparem,em busca de novos tesouros e aventuras.Os olhos negros olharam displicentes,ele sorriu,acariciou seu rosto,e partiu.Sentindo frio,abraçou a si mesma e voltou para a janela.O sol,tímido,escondia-se atrás de nuvens magras e amareladas.O dia nascia,mas não para ela.Passaria longas horas rememorando a noite,sentindo saudades e desejando inocentemente que o vento trouxesse de volta aquele barco para o seu porto.
sábado, 24 de novembro de 2007
Mel de cana
Doce feito mel de cana.Mais bonita que pastagem verde depois da chuva.Todo dia a via passar,vestido florido,bacia de roupas na cabeça,cheiro de manga madura e ficava sem ação.Ela,sorrindo timidamente,sempre o cumprimentava,e ele respondia apenas com um aceno.Fazia apenas três meses que trabalhava ali,no engenho de cana da fazenda de Seu Josué,e há três meses dentro dele a paixão fermentava.Homem de poucas palavras,poucos amigos,não se sabia de seu passado,nem se tinha família,dizia apenas que tinha vindo de Monteiro,e que trabalhava desde menino.Forte,discipilinado,era o primeiro a chegar no engenho e o último a sair.Evitava gastar dinheiro no forró e raras vezes ia fumar e beber cachaça com os outros trabalhadores no boteco da praça da Igreja.Noite e dia pensava em Luzia.Caçoavam dele,porque quando a via,ficava paralisado,vidrado nela,como se tivesse visto assombração.Ele não permitia brincadeira,resmungava e saindo do transe,voltava logo ao serviço.E assim corriam os dias e Everaldo naquela adoração silenciosa pela morena.Luzia,vaidosa e esperta,sabia que atraia os homens da fazenda.Gostava de ve-los tentando sempre chamar sua atenção,assobiando,gritando elogios.Até presentes recebia.Todo fim de semana eram muitos os convites pra ir ao forró.Luzia ia,dançava,alguns até beijava,mas gostar,gostar mesmo,não gostava de nenhum.Era romãntica e queria um amor de novela.A mãe temendo que a filha ficasse pra titia,rezava todo dia o terço pedindo que Santo Antônio arranjasse logo um marido para a filha avoada.Luzia seguiria assim,desdenhando os pretendentes e esperando pelo príncipe encantado se não fosse o olhar de devoção de Everaldo.Ele era o único que não a chamava para o forró,o único que não gritava elogios grosseiros.Era também o único que corava toda vez que ela sorria para ele.E foi isto que a comoveu.Esperou meses por uma aproximação,mas Everaldo se limitava a sorrisos discretos e olhares apaixonados.Uma tarde,voltando do riacho,cansada,teve uma surpresa desagradável.Viu o até então devotado Everaldo conversando com Maria,filha da cozinheira da fazenda.Tomada pelo ciúme,não pensou duas vezes.Largou a bacia no chão,correu até o casal,afastou a rival com um empurrão e beijou um surpreso Everaldo com tanta vontade que quem estava perto parou para ver a cena.Ouviram-se aplausos e assobios.O sol caia preguiçoso no horizonte.A primeira brisa fresca da noite sacudiu as folhas dos cajueiros e das mangueiras e impregnou o ar com o cheiro da cana recém cortada.Breve a lua surgiria,para acalentar mais uma história de amor inesperado.
sexta-feira, 16 de novembro de 2007
The heart asks pleasure first
Pulsa,se mostra devagar.Vai aumentando à medida do que recebe.Delicado,imprevisível,ativado até por um simples olhar,é assim o meu desejo.Capaz de em segundos me transformar na mulher mais sensual que posso ser,metamorfose,surpresa.Dique vazando a água da represa.Pétalas acariciadas pelo sol da manhã.Vem e me toma.A razão então dá passagem e se esconde no canto,pra assistir de camarote.E se meu sim se soma a outro sim,me entrego à inebriante sensação de não ter mais controle.Não sou mais um todo,e sim partes,que interagem,que parecem agir independentemente.O tempo se reparte em momentos preciosos de prazer.É doce me abandonar assim.Pena que nunca é suficiente.Meu coração carece dos afetos e atenções que apenas o corpo recebe.E então a razão volta ao posto,soberana,com ares de rainha cansada,só para lembrar que o que houve não foi o bastante.
terça-feira, 13 de novembro de 2007

PJ Harvey.
Porque ultimamente fiquei mais fã dela ainda!
Speak I'm listening
Baby I'm your sweet thing
Believe what I'm saying
God's truth I'm not lying
Lie steady
Rest your head on me
I'll smooth it nicely
Rub it better 'till it bleeds
And you'll believe me
Caught out again
I'm calling you weak
Getting it up
And I was joking
Sweet babe let me stroke it
Take I'm giving
God's truth I'm not lying
And you'll believe me
I'm calling you weak
And I'll make it better
And rub 'till it bleeds
I'll rub it until it
(PJ Harvey - Rub 'Til It Bleeds )
sábado, 10 de novembro de 2007
Amores possíveis?
Sempre depois,sempre antes,sempre atrasada,nunca na hora certa.Chego quando não posso ser mais que um prazer momentâneo,um instante,um desejo,um querer,uma conquista,e então,sou dispensada.Já deu,já foi,já era.E então tenho que guardar as expectativas,as vontades,os planos,lá dentro,escondidos,desprezados,na seção dos 'não realizados'.E então tenho que me olhar no espelho e tentar rir de mais um revés.Acontece,é a vida,esquece,parte pra outra.Cansada de tanta não realização me recolho,borboleta regride de volta pro casulo.Não consigo,porém,ficar muito tempo ausente.A vida me chama,e dentro de mim aqueles desejos não atendidos novamente gritam,me incomodam,pedem a satisfação.A roda viva gira,gira,meu coração maltratado bate,bate e eu,linha e agulha,faço remendos,os olhos procuram,a alma suspira e a espera,esperança de alcançar,de conseguir,de ter se renova,vela tentando ficar acesa no vendaval.