sexta-feira, 30 de maio de 2008

Alguém já tinha me dito 'Leia Manoel de Barros',mas foi informação que esqueci.Até que,os acasos da vida,fui hoje comprar a revista Vida Simples e nela tem um texto de um cara que entrevistou o poeta.Quando fui ler sua obra na Internet,fiquei,como fico quando leio algo que gosto,impressionada,digerindo o que havia lido.Aí quis colocar algo dele aqui.Hoje Manoel de Barros é um senhor de 91 anos que diz que não escreve mais porque está oco.Escreva ele mais uma linha ou não,o que já está aí é uma vida,a dele,e as vidas que cada palavra sua cria.
Enjoy! =D


"Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor, esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
- Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável, o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida um certo gosto por nadas...
E se riu.
Você não é de bugre? - ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
gramática."

terça-feira, 27 de maio de 2008

Sentimentos

Já disseram que os sentimentos são águas do instante.Volúveis,fluidos,vem e vão feito a chuva que cai lá fora.Mas nem sempre eles têm essa leveza áquatica.Muitas vezes os sentimentos são água parada,turva,que esconde o que tem embaixo e permanecem parados e escuros,dia após dia.Qualquer que seja sua natureza,entretanto,os sentimentos,meus,seus,nossos,alheios,não podem nem devem ser desprezados,rebaixados,mal visitados.Eles parecem ter vida própria!Alguns você guarda com carinho,naquela gaveta da cômoda.Você vez ou outra vai lá,abre a gaveta,dá uma olhada saudosa,limpa a poeira e fecha(para um dia abrir de novo).Outros você guarda reluntante,já que,por mais que tente,eles continuam lá,não te deixam,então se vive ora em guerra ora em paz com eles.Alguns sentimentos são traiçoeiros,ficam tentando te levar pro lado negro da força.Cuidado com eles!Há também os dissimulados,os que nos testam,ou tentam.Podem,ou não,serem aproveitados,dependendo do astral,do momento,da maré.Há ainda os notadamente nocivos.São aqueles que tiram facilmente o sorriso do rosto,o viço da pele,a capacidade de se alegrar com a lua cheia,de desejar o bom(o bem),de ter prazer,de simplesmente querer.Quantos a esses,melhor espantar e não alimentar, pois erva daninha sempre dá trabalho na hora de se limpar o jardim.E finalmente,existem os sentimentos surpresa.Surgem quando menos se espera e podem,de verdade,mudar o rumo,bagunçar a cabeça,acelerar o coração.Esses tenho a impressão que nos dão um empurrão,nos tiram do nosso lugarzinho comum,do conforto que virou tédio.Mexem,inspiram,incitam,dão motivo,dão estímulo,dão pano pra manga,dão que falar.Esses sim,quero aqui,ali,fora,dentro.Desses,que podem ser um tanto inconsequentes,quiçá irresponsáveis,quero nunca poder fugir.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Meio-dia.Sol de rachar.Nenhuma nuvem no céu,nenhuma brisa amiga.No centro da cidade,os carros,as pessoas,os ambulantes,tudo muito rápido,urgência,pressa.
Caminhava cansada,num calor que parecia enfraquecer.A cabeça como sempre cheia de pensamentos,os sentimentos cozinhando em banho maria.Desejando ardentemente poder voar ou me teletransportar para casa,me dirigi ao ponto,para esperar o ônibus que sempre atrasava.Então notei,sentada no banco,franzina e tentando não ser notada,uma mulher que chorava.Abraçava a bolsa e um embrulho,como que buscando conforto,e tentava,sem muito sucesso,passando os dedos embaixo dos olhos,conter a as lágrimas,que caiam sem trégua.As pessoas sentadas a seu lado observavam,timidamente.Um senhor de cabelos muito brancos apoiado numa bengala a encarava,admirado.A mulher,percebendo que não podia mais se conter ou disfarçar,começou então a soluçar,e a gemer e a chorar convulsivamente.Ofereceram um copo d'água.Um jovem magro e engravatado agachou na frente dela,e começou a falar de deus,do diabo,de pecado,do mundo que estava perdido e da salvação pela fé.A mulher,mais calma,bebeu a água e ajeitando os cabelos,começou a se recompor.O tempo todo não disse uma palavra.Parecendo envergonhada,levantou-se,olhando ao redor;e me encarou com um olhar absurdamente triste.Eu,sem saber o que fazer,abaixei o rosto.A mulher andou um pouco,respirou fundo e entrou num ônibus que me pareceu não ser aquele que vinha esperando.Quando ela foi embora,todos ali,inclusive eu,nos sentimos de certa forma abandonados.Aquela mulher chorando tinha sido o grande acontecimento do dia.

terça-feira, 6 de maio de 2008

O diário de Nini


Berenice é um nome muito sério.Papai disse que minha bisavó era quem usava esse nome.Mamãe achou bonito e me deu pra eu usar também.Mas Berenice eu só vou usar quando eu estiver velhinha.É por isso que digo pra todo mundo me chamar de Nini.Nini sim,é um nome pequeno e engraçado,que nem eu.Aqui em casa só tem adulto,e adulto é um bicho estranho.Tem dia que ri muito,tem dia que chora escondido.Tem dia que quer brincar,tem dia que se tranca no escritório e diz que eu não posso entrar.Eu tenho muitos brinquedos,mas já enjoei de todos.Papai disse que brinquedo era caro e que só vai me dar outro no meu aniversário.Ainda bem que tá perto.Então quando os adultos ficam com raiva,e a cara deles fica feia e eles ficam resmungando pelos cantos,eu já sei que tenho brincar em silêncio,e sozinha no meu quarto.Daí eu imagino coisas que minha Tia Zezé diz que fazem parte do mundo da fantasia.Mas não sei onde é que fica isso!Aí eu pego um papel,lápis,caixa de hidrocor,canetinha colorida,e começo a desenhar.Eu desenho tanto que esqueço do tempo e Maria,a moça que trabalha aqui em casa,tem que vir bater na porta com força pra me levar pra jantar,ela diz que grita meu nome mas eu não escuto.O que ninguém sabe(talvez eu conte isso a tia Zezé) é que eu não fico só desenhando não.Eu faço uma mágica e vou pra dentro do desenho.Eu acho que se chama mágica porque é que nem o que aquele rapaz na TV faz.Só que ele pega um lenço,o lenço fica bem grande,depois ele corta,ele fica pequeno,depois fica grande de novo,aí ele mexe a mão assim e puf! o lenço some.Eu pego o desenho,abraço com força,fecho os olhos e fico pedindo 'Por favor,me leve pra lá!Por favor me leve pra lá! aí quando eu vejo,eu já tô lá.Ninguém aqui em casa sabe,porque eu sempre volto na hora do jantar e faço de conta que tô desenhando ainda.Aí,quando Maria vem me chamar e abre a porta,ela nem nota nada.Papai disse que eu sou uma menina muito imaginativa.Eu não sei o que é isso,vou perguntar a minha professora amanhã,mas acho que é uma coisa boa,porque quando ele disse isso,ele riu e passou a mão na minha cabeça.Lá no colégio,quando eu conto das minhas viagens,meus amigos dizem que é invenção minha,ninguém acredita...Mas depois de amanhã,quando eu for de novo pra lá,o senhor Bugiganga disse que ia me dar a bengala dele,pra eu trazer pra cá e mostrar pra todo mundo.Depois disso aposto que todo mundo vai ficar de olho arregalado e pedir desculpa por terem dito que eu era mentirosa.Agora tá tarde,é bem de noite já,e eu tenho que dormir.Mamãe sempre fala que uma boa noite de sono faz a gente acordar feliz.Acho mamãe tão inteligente!Tenho que ir,depois escrevo mais.Boa noite,querido diário! Beijinhos,Nini.