terça-feira, 20 de maio de 2008

Meio-dia.Sol de rachar.Nenhuma nuvem no céu,nenhuma brisa amiga.No centro da cidade,os carros,as pessoas,os ambulantes,tudo muito rápido,urgência,pressa.
Caminhava cansada,num calor que parecia enfraquecer.A cabeça como sempre cheia de pensamentos,os sentimentos cozinhando em banho maria.Desejando ardentemente poder voar ou me teletransportar para casa,me dirigi ao ponto,para esperar o ônibus que sempre atrasava.Então notei,sentada no banco,franzina e tentando não ser notada,uma mulher que chorava.Abraçava a bolsa e um embrulho,como que buscando conforto,e tentava,sem muito sucesso,passando os dedos embaixo dos olhos,conter a as lágrimas,que caiam sem trégua.As pessoas sentadas a seu lado observavam,timidamente.Um senhor de cabelos muito brancos apoiado numa bengala a encarava,admirado.A mulher,percebendo que não podia mais se conter ou disfarçar,começou então a soluçar,e a gemer e a chorar convulsivamente.Ofereceram um copo d'água.Um jovem magro e engravatado agachou na frente dela,e começou a falar de deus,do diabo,de pecado,do mundo que estava perdido e da salvação pela fé.A mulher,mais calma,bebeu a água e ajeitando os cabelos,começou a se recompor.O tempo todo não disse uma palavra.Parecendo envergonhada,levantou-se,olhando ao redor;e me encarou com um olhar absurdamente triste.Eu,sem saber o que fazer,abaixei o rosto.A mulher andou um pouco,respirou fundo e entrou num ônibus que me pareceu não ser aquele que vinha esperando.Quando ela foi embora,todos ali,inclusive eu,nos sentimos de certa forma abandonados.Aquela mulher chorando tinha sido o grande acontecimento do dia.

6 comentários:

O Profeta disse...

Solta nota de uma flauta
Um retrato preso à mão
Um tambor fora do compasso
Segue o bater de coração


Convido-te a partilhar as emoções
Deixadas pelos ponteiros de um relógio…


Boa semana


Mágico beijo

André Macedo disse...

É engraçado observar estas coisas de fora (mesmo poque com excessão de D-us e Graciliano Ramos não existem mais oniscientes), quem danado há de saber o que se passa na cebeça dela, mas ela já, de alguma forma, faz parte da história de algumas pessoas.
certamente ela botou no Blog dela:
"Tava me acabando de chorar, pela demora do ônibus, um chato veio me evangelizar, um calor de torar... encarei uma moça lá que me pareceu conhecida, por fim meu ônibus chegou e fui para casa"...
Gozado... Excelente texto!

Mariazita disse...

O acaso tem destas coisas...
O acaso me trouxe e me fez parar aqui. Exactamente no ponto do ónibus (em Portugal chamamos autocarro).
Li este texto e os dois anteriores.
Deliciosos!
A Nini é espectacular!
Tudo muito bom. Nota 10!
Vou voltar com mais tempo, porque gostei muito do que vi.
Parabéns!
Beijos
Mariazita

Camilla Tebet disse...

Belo texto. BEla figura de uma mulher corajosa o suficiente pra chorar na rua, no ponto e ônibus, chorar em público, chorar ao público e sem nem uma palavrinha pra explicar as lágrimas. E entrou num ônibus que parecia não ser o dela. Mulher livre. Chorou sua tristeza, tomou o rumo que achou ser melhor naquele momento. Os que ficaram, os que esperavam, foram mesmo abandonados pela liberdade, a atração do dia.
Lindo texto.

Mauricio Babilonia disse...

copie com fé, brou! uaeuaeuhauhauhauh

e ainda espalhe pros amigos ;)

Lau Siqueira disse...

hehehe, pensei em te sugerir uma coisa: Dia desses vc escreve um livro chamado "As Mulheres da Minha Vida", come�ando com esse texto. rsrsrs
Brincando! rsrsrs Gostei da forma como voc� amparou os detalhes. Um toque sobre o cen�rio poderia cair bem (o que vc acha?)e se voc� exclu�sse a �ltima linha, ficaria �timo. Ficaria um final impactante. Mas se voc� me mandar pra merda por me meter onde n�o devo, tamb�m vou achar maravilhoso! hahaha
bjs!
Lau

PS. Se liga a� viss? Voc� escreve bem, tem pique pra desenvolver um texto. Um bom texto, ali�s! Independentemente de qual seja o teu caminho, a intimidade com a cria�o de texto sempre ir� te ajudar.