segunda-feira, 16 de junho de 2008
Voyeur
Ele tinha cheiro de sonho.Daqueles que se repetem,e que guardamos,em segredo.Todos os dias passava por mim e me dirigia um educado sorriso como cumprimento.Saía sempre apressado,com os pretos cabelos molhados e bem penteados,a pasta numa das mãos,a outra ocupada em terminar de vestir o paletó.Entrava no carro e abria um sorriso infantil assim que ligava o som.Quase sempre ouvia jazz,mas nos dias em que ouvia Chico Buarque,uma sombra lhe cobria o rosto,e seguia calado.Tinha um rosto bonito,de romântico dos anos 20,com olheiras que tentava disfarçar com óculos escuros.Vivia só,e tinha um aquário cheio de peixinhos coloridos.Passava a maior parte do dia fora e quando chegava do trabalho,trazia um cansaço maior que ele,que eu percebia,quando o via desabar na poltrona da sala.Ficava sentado,na penumbra,por longos minutos,em silêncio.Então,como se acordasse,sacudia a cabeça,tirava os sapatos e começava a ligar todas as luzes.Jantava pouco.Abria a pasta e espalhava arquivos de papelão pela mesa de vidro.Escolhia um ou dois,levava para o quarto e os lia,madrugada adentro.Acordava cedo,e ia beber café na varanda,olhando distraído o céu fresco da manhã.E assim vivia seus dias.Devia ter alguma vida secreta,um amor mal(ou bem)resolvido,quem sabe uma família que deixou pra trás numa cidadezinha do interior,ou um crime que cometeu em outro país.Era um homem diferente de todos os outros que havia visto até então.E talvez por isso,dedicasse a ele horas de inocente voyeurismo.Queria descobrir a senha para entrar naquele mundo só dele,mas estava tudo tão fechado e guardado,que me parecia que nem ele sabia mais como sair.
4 comentários:
mas, quem sabe você não consiga tirar ele de lá? tirá-lo da rotina, da mesmisse. quem sabe você não saia do dia-a-dia de observá-lo.
adorei o texto.
beeijos
eu sei que é ficção hehe
mas, acho que todo mundo já passou por momentos assim ou bem parecidos. é difícil entrar em algo que criamos para nosssa 'proteção'. e, às vezes, fica difícil de sair.
hehe
beijos, querida
Ah, que delícia é ser um pouco voyeur. Mas seu texto tão conciso e curioso não precisa descobri-lo, deixa a vontade de imaginar para ele várias vidas.. as que vc escolher.
Adorei. feliz com sua volta.
muito bom o texto!Cinematográfico.
Taty Macoli
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