domingo, 28 de junho de 2009


“E para isto estou viva.” Para que doa. Para que sangre. Para que o sentimento escorra de mim feito água da chuva que passou,e que com o rodo a gente expulsa de casa. Para que dentro se forme e se reforme a mulher, a pessoa, a essência. Para que eu saiba não saber. Para que eu aceite a vida me carregando ora feito marola, ora feito enchente. Para que eu queira, e o querer me leve. Para que eu não queira, e o não querer me encerre dentro da concha,pérola em(eterna)maturação. Para que o sofrer me manche o rosto, das lágrimas que caem deixando quase sulcos, rastros, quase rugas. Para depois não sofrer mais, e o rosto, desafiando as leis do tempo, rejuvenesça num sorriso inesperado de menina. Mas estou viva. Viva feito bicho, feito árvore, feito a terra. Viva, feito gente. Viva, andando com meus passos nos caminhos deste misterioso destino que (talvez) lá de cima, cuidadoso feito mulher rendeira, o criador dia-a-dia tece.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

A pele respira desejo. E os pelos eriçados pelo arrepio que o próprio desejo provoca. Respira fundo: a viagem da entrega começa. Dos dedos que tateiam, e tocando descobrem,e tomam pra si, posseiros de terra que não possuem. Da língua que lambe,e vai deixando um rastro molhado de fome. Da boca que suga pedaços de tesão. Do peso do outro corpo, suado do exercício da troca. Dos gemidos e gritos, que ecoam pelo espaçoso imóvel sem móveis. Nunca pensou que procurar um novo apartamento pudesse ser tão excitante.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

O crepúsculo varre a poeira do dia,cobrindo o mundo com um céu arroxeado. Da varanda, contempla o horizonte com a cabeça cheia de incertezas. Generosa,a vida acaricia seus cabelos com uma brisa morna. Tudo bem não saber, desde que se sinta. O coração pulsa um sangue quente de sentimentos, e mesmo só,sente-se preenchida. Vai colorindo sua história, de azuis, cinzas, mas também de vermelhos, verdes, amarelos,numa aquarela exagerada, que muitas vezes gritando,chora, mas calada, sorri. O olhar alcança até o que não existe ainda. Vai,abraça mais uma noite, contempla outra vez as estrelas. Teu amanhã é ainda uma invenção,um porvir que a Lua esconde. Mas dentro, forte, intenso, inocente, já respira um anseio, um desejo pelas venturas de mais um dia.

segunda-feira, 4 de maio de 2009



Tua voz desliga o dia
e acende a Lua

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Deitava e começava a pensar nos orgasmos dela. Ela gozava com uma liberdade que ele jamais teria. Enquanto a observava gemendo em êxtase, sentia-se hipnotizado, marujo atraído pelo canto da sereia. Era difícil entender que tinha sido ele o causador de tamanho prazer. Ele, sufocado pela gravata e pelos gritos do chefe. Igual à multidão de engomadinhos que se arrastava pela cidade.Comum, até mesmo nas neuroses e fantasias. Ela, com seu andar de dona do mundo, pertencia e não pertencia a lugar nenhum. Uma mulher com um cheiro e gosto diferentes, exóticos, intoxicantes. Fêmea,maior que a cidade. Depois do sexo levantava-se bruscamente, como se tivesse acordado de um sonho ruim, e ficava em pé, nua, fumando contra a janela.Poderia matá-lo, se quisesse. Partir seu corpo amarelado em pedacinhos, e saboreá-lo no almoço, que ele não iria se opor, talvez até ajudasse, guiando a faca. Ah,quanto poder ela tinha! E ele assustado e fascinado, seguia feito um zumbi o calendário de dias sem ela, voltando a sua condição de humano e presa, assim que ouvia do outro lado da linha o imperativo ‘Venha hoje!’.
Naquela tarde abafada, dirigiu-se feito soldado convocado para o local combinado. No caminho, pessoas pisando gelatinosas as ruas, semi –vivas ,quase-mortas. Parou numa joalheria e quis comprar um colar para a amante. Sentiu-se fracassado pois não poderia pagar pelo modelo que achou mais adequado à sua Vênus. Na esquina seguinte, num impulso de adolescente apaixonado, comprou um ramalhete simplezinho de floreszinhas pequenininhas. Andava revigorado, meio aéreo, confiante. Conferiu a hora: estava atrasado. Ah,mas foi por causa do presentinho, ela entenderia. Dispensou o elevador que demorava e subiu ofegante pelas escadas. Com o coração acelerado e a boca salivando, pôs a mão na maçaneta da porta, que deveria estar destrancada, como de praxe. Sentindo uma resistência, estranhou. Sabendo que a amante condenaria qualquer alarde, e imaginando que aquilo fosse parte da brincadeira do dia, deu um risinho e forçou a porta. Nada. Bateu,de leve,chamando. Nada, nem um som vindo do quarto. Preocupado, chamou mais uma vez,a voz se alterando, teria esquecido do encontro? Não, ela jamais faria isso. Lembrou-se de um truque que vira num desses seriados americanos e retirando um clipe da pasta, tentou, em vão, destrancar a porta. Chamava agora seu nome com insistência. Alto.Claro.
-Abre logo,porra!!!
Sem resposta, vermelho de raiva e vergonha, suando muito, procedeu ao arrombamento. Forçou o ombro contra a porta,sem sucesso. Gritando por ela, passou aos pontapés. Nenhuma alma naquele hotel barato surgiu para aliviá-lo ou atrapalhá-lo. De um impulso, jogou-se com toda a força e a porta cedeu. Do quarto um bafo quente e uma escuridão pegajosa. Entrando com cuidado, acendou o interruptor. Revelou-se a cena grotesca: jogado na cama,jazia o corpo ensagüentado da amante. No criado mudo, giletes usadas, uma garrafa vazia de conhaque. Pôs os olhos pela última vez naqueles olhos de gata. E fechando-os delicadamente, deixou-se cair sobre o ventre da amada,soluçando. Lá fora a rua rugia, ameaçadora.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Essa urgência.Constante estado de alerta.Fuck me right now, I’m yours. Ia e se diluía em suor,diminuindo a cada orgasmo. Ficava uma parte com ele. Parte,partícula,gota,fluídos. Em cada lugar,em todo lugar, a possibilidade. Posse. Encontros. Fugia o tempo em minutos de gemidos, suspiros, monossílbos exaltados. Para que saber de mais? Demais. Os corpos sempre pareciam se entender, como se seguissem um roteiro pré- escrito. Uma história além,anterior. Take me,and leave. O agora vale mais. O depois? Talvez fosse parte do roteiro,talvez não. Ela gostava dele porque ele lhe dava uma prazer simples: as bolhinhas do champagne fazendo cócegas na ponta do nariz. Orgânico,natural. Ele gostava dela porque ela o enlouquecia. Vivia sonhando sua presença em cada virada de esquina. Cabeça a mil. Cabeça a prêmio? Cortadinha na bandeja,para agradar madame. You can always have me,baby. O amanhã? Um raio de sol lambendo a alva cortina. A luz forte do dia revelando as olheiras do insone.

domingo, 22 de março de 2009

Pílulas de felicidade.Afinal,não se pode sair por aí sorrindo,simplesmente.Não,senhor,o mundo estranharia.Então,ela distribuía sua secreta intensa alegria ao longo dos dias. Um pouquinho pela manhã, logo cedo,no sorriso extremamente aberto do bom dia ao porteiro. Mais um pouco andando pelos corredores da firma,nas idas e vindas da sala de reuniões.Nesses momentos,tinha que ser muito cuidadosa,pois Telma, a secretária do chefe, a tinha pego em flagrante,sorrindo pro nada,e desde então, olhava-a de soslaio, e mal se aproximava dela no refeitório.A melhor hora para sorrir sem medo era a hora do intervalo para o almoço. Voltava mais cedo,pois sempre comera pouco(“feito passarinho”,como sua mãe sempre dizia) e ficava preciosos minutos a sós no escritório. Sorria feito criança abrindo presente no dia do aniversário. Sorria com o corpo inteiro,sentada na sua cadeira, pernas largadas, cabeça caindo um pouco pro lado, olhando através das imensas janelas de vidro espelhado. Sim,estava feliz, uma felicidade que a preenchia. Feliz como jamais estivera e duvidava que jamais fosse experimentar sensação tão pura como aquela,por isso saboreava-a,boca salivando à visão da sobremesa preferida. Distraiu-se mais uma vez e voltou do devaneio com o inoportuno cutucar da colega da sala vizinha. Enrubesceu, gaguejou,mas não deu pano pra manga de fofoca que a outra estava doida para costurar. Mudou de assunto,contrariada. Ah, pra que explicar? Temia que caso se dispusesse a realmente explicar as origens,os início,o meio,o desenrolar,e o resultado, o encanto passaria,e sua felicidade seria censurada,ridicularizada,quiçá diminuída.Guardou-a para si até voltar pra casa naquele dia. No trajeto,teve o cuidado de não sorrir sequer uma vez, nem quando um bebê, sentado no colo da mãe ao seu lado, no metrô,olhou-a com dois olhinhos verdes curiosos e abanou a mãozinha. Chegou em casa, o peito quase explodindo de tanta felicidade armazenada no dia. Acendou a luz,tirou os sapatos e olhou para o sofá: aí sorriu,sim,até gargalhar e foi caber, de novo,no abraço daqueles braços.