segunda-feira, 4 de maio de 2009



Tua voz desliga o dia
e acende a Lua

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Deitava e começava a pensar nos orgasmos dela. Ela gozava com uma liberdade que ele jamais teria. Enquanto a observava gemendo em êxtase, sentia-se hipnotizado, marujo atraído pelo canto da sereia. Era difícil entender que tinha sido ele o causador de tamanho prazer. Ele, sufocado pela gravata e pelos gritos do chefe. Igual à multidão de engomadinhos que se arrastava pela cidade.Comum, até mesmo nas neuroses e fantasias. Ela, com seu andar de dona do mundo, pertencia e não pertencia a lugar nenhum. Uma mulher com um cheiro e gosto diferentes, exóticos, intoxicantes. Fêmea,maior que a cidade. Depois do sexo levantava-se bruscamente, como se tivesse acordado de um sonho ruim, e ficava em pé, nua, fumando contra a janela.Poderia matá-lo, se quisesse. Partir seu corpo amarelado em pedacinhos, e saboreá-lo no almoço, que ele não iria se opor, talvez até ajudasse, guiando a faca. Ah,quanto poder ela tinha! E ele assustado e fascinado, seguia feito um zumbi o calendário de dias sem ela, voltando a sua condição de humano e presa, assim que ouvia do outro lado da linha o imperativo ‘Venha hoje!’.
Naquela tarde abafada, dirigiu-se feito soldado convocado para o local combinado. No caminho, pessoas pisando gelatinosas as ruas, semi –vivas ,quase-mortas. Parou numa joalheria e quis comprar um colar para a amante. Sentiu-se fracassado pois não poderia pagar pelo modelo que achou mais adequado à sua Vênus. Na esquina seguinte, num impulso de adolescente apaixonado, comprou um ramalhete simplezinho de floreszinhas pequenininhas. Andava revigorado, meio aéreo, confiante. Conferiu a hora: estava atrasado. Ah,mas foi por causa do presentinho, ela entenderia. Dispensou o elevador que demorava e subiu ofegante pelas escadas. Com o coração acelerado e a boca salivando, pôs a mão na maçaneta da porta, que deveria estar destrancada, como de praxe. Sentindo uma resistência, estranhou. Sabendo que a amante condenaria qualquer alarde, e imaginando que aquilo fosse parte da brincadeira do dia, deu um risinho e forçou a porta. Nada. Bateu,de leve,chamando. Nada, nem um som vindo do quarto. Preocupado, chamou mais uma vez,a voz se alterando, teria esquecido do encontro? Não, ela jamais faria isso. Lembrou-se de um truque que vira num desses seriados americanos e retirando um clipe da pasta, tentou, em vão, destrancar a porta. Chamava agora seu nome com insistência. Alto.Claro.
-Abre logo,porra!!!
Sem resposta, vermelho de raiva e vergonha, suando muito, procedeu ao arrombamento. Forçou o ombro contra a porta,sem sucesso. Gritando por ela, passou aos pontapés. Nenhuma alma naquele hotel barato surgiu para aliviá-lo ou atrapalhá-lo. De um impulso, jogou-se com toda a força e a porta cedeu. Do quarto um bafo quente e uma escuridão pegajosa. Entrando com cuidado, acendou o interruptor. Revelou-se a cena grotesca: jogado na cama,jazia o corpo ensagüentado da amante. No criado mudo, giletes usadas, uma garrafa vazia de conhaque. Pôs os olhos pela última vez naqueles olhos de gata. E fechando-os delicadamente, deixou-se cair sobre o ventre da amada,soluçando. Lá fora a rua rugia, ameaçadora.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Essa urgência.Constante estado de alerta.Fuck me right now, I’m yours. Ia e se diluía em suor,diminuindo a cada orgasmo. Ficava uma parte com ele. Parte,partícula,gota,fluídos. Em cada lugar,em todo lugar, a possibilidade. Posse. Encontros. Fugia o tempo em minutos de gemidos, suspiros, monossílbos exaltados. Para que saber de mais? Demais. Os corpos sempre pareciam se entender, como se seguissem um roteiro pré- escrito. Uma história além,anterior. Take me,and leave. O agora vale mais. O depois? Talvez fosse parte do roteiro,talvez não. Ela gostava dele porque ele lhe dava uma prazer simples: as bolhinhas do champagne fazendo cócegas na ponta do nariz. Orgânico,natural. Ele gostava dela porque ela o enlouquecia. Vivia sonhando sua presença em cada virada de esquina. Cabeça a mil. Cabeça a prêmio? Cortadinha na bandeja,para agradar madame. You can always have me,baby. O amanhã? Um raio de sol lambendo a alva cortina. A luz forte do dia revelando as olheiras do insone.

domingo, 22 de março de 2009

Pílulas de felicidade.Afinal,não se pode sair por aí sorrindo,simplesmente.Não,senhor,o mundo estranharia.Então,ela distribuía sua secreta intensa alegria ao longo dos dias. Um pouquinho pela manhã, logo cedo,no sorriso extremamente aberto do bom dia ao porteiro. Mais um pouco andando pelos corredores da firma,nas idas e vindas da sala de reuniões.Nesses momentos,tinha que ser muito cuidadosa,pois Telma, a secretária do chefe, a tinha pego em flagrante,sorrindo pro nada,e desde então, olhava-a de soslaio, e mal se aproximava dela no refeitório.A melhor hora para sorrir sem medo era a hora do intervalo para o almoço. Voltava mais cedo,pois sempre comera pouco(“feito passarinho”,como sua mãe sempre dizia) e ficava preciosos minutos a sós no escritório. Sorria feito criança abrindo presente no dia do aniversário. Sorria com o corpo inteiro,sentada na sua cadeira, pernas largadas, cabeça caindo um pouco pro lado, olhando através das imensas janelas de vidro espelhado. Sim,estava feliz, uma felicidade que a preenchia. Feliz como jamais estivera e duvidava que jamais fosse experimentar sensação tão pura como aquela,por isso saboreava-a,boca salivando à visão da sobremesa preferida. Distraiu-se mais uma vez e voltou do devaneio com o inoportuno cutucar da colega da sala vizinha. Enrubesceu, gaguejou,mas não deu pano pra manga de fofoca que a outra estava doida para costurar. Mudou de assunto,contrariada. Ah, pra que explicar? Temia que caso se dispusesse a realmente explicar as origens,os início,o meio,o desenrolar,e o resultado, o encanto passaria,e sua felicidade seria censurada,ridicularizada,quiçá diminuída.Guardou-a para si até voltar pra casa naquele dia. No trajeto,teve o cuidado de não sorrir sequer uma vez, nem quando um bebê, sentado no colo da mãe ao seu lado, no metrô,olhou-a com dois olhinhos verdes curiosos e abanou a mãozinha. Chegou em casa, o peito quase explodindo de tanta felicidade armazenada no dia. Acendou a luz,tirou os sapatos e olhou para o sofá: aí sorriu,sim,até gargalhar e foi caber, de novo,no abraço daqueles braços.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Memória amarelada, feito fotografia velha. Então o céu varreu as nuvens do horizonte, a chuva parou e o sol apareceu tímido, enquadrado num cantinho. Pousou a caneca na mesinha. Arrumou rosto e cabelos apressadamente, espiando no espelho do corredor. Em meia hora, o trem dele partiria. E antes que a lembrança se desintegrasse ali, corroída pelo que passou, saiu. Ainda há tempo, ainda há espaço, pensou. E desta vez teve certeza, pois recebera o sinal: a chuva veio e subitamente cessou,como quando o viu pela primeira vez.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009


If I kiss you again,I want to press gently my lips against yours
If I kiss you again,I want to go slowly
If I ever kiss you again,I want to taste you,so that I will always remember your flavour
If I kiss you again,I want to feel you, I want to lick your soul
If I ever kiss you again,I want to go deep,I want to know who you really are though I suspect
You wouldn’t give yourself away in just one(another) kiss


P.S.:Feito depois de assistir,de novo,a "Antes do amanhecer". =)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Efêmero

Rápido.Que passa numa batida de coração,num trocar de pensamento,num desviar. Mas que faz ligar uma luzinha lá dentro,uma reação, que ilumina o rosto,que faz os olhos sorrirem,ou que faz franzir a testa, baixar a cabeça,nublar o olhar. Causa impacto,sempre,mesmo que tal impacto só surja quando se está prestes a dormir,e se faz a revisão do dia. A rotina é efêmera, a vida passa tão rápido que parece querer comer a própria vida, leão espreitando e salivando atrás da presa. São os momentos,esses sim,que costurando-se um ao outro,vão formando o que vivemos e o que é hoje,para não ser amanhã ou para ser mais do hoje,ou para ser inteiramente diferente do que era há três dias. Estou divagando(e muito),relembrando os efêmeros mais recentes,e para concluir a noção de que nos efêmeros está(também) a graça,a dor,a riqueza da vida,me vem um olhar cansado e curioso,vindo de olhinhos pretinhos e brilhantes de um menininho muito bonitinho,que,exausto da viagem, se virou para mim e apesar de ser ainda muito novinho,trocou comigo um olhar de compreensão.