
Pedro e Sabrina
-Está chovendo. Gosto de ver os pingos de água manchando as janelas.
-Acho que a chuva segue o humor da gente.
-Talvez. Vou lá fora. Quero me molhar.
Saiu correndo para abraçar o temporal. Em questão de segundos, ficou totalmente ensopada. Sorria e erguia o rosto para o céu, como se buscasse um reconhecimento. Andou pelo pátio, parando para observar as gotas deixando marcas no chão, nas folhas, na terra. Não pareceu se incomodar em nenhum momento, ou mesmo sentir frio. Era noite e a iluminação se resumia às luzes vindas da casa e ao amarelado de uma lâmpada de poste um pouco ao longe, na esquina.
Pedro ficou parado na soleira da porta, sem se mexer, com medo de interferir no que acontecia à sua frente. Sentiu que começava a viver algo, experimentava um novo que não o assustava. Sabrina, parecendo estar satisfeita com o banho que tomara, dirigiu-se de volta a casa, sem desviar o olhar dos olhos de Pedro.
- Você está toda molhada agora.
-Era exatamente isso que eu queria.
-Podemos entrar?
-Sim, desde que você prometa lamber cada gota dessa água do meu corpo.
Por um segundo, Pedro ficou sem ação. Sabrina se oferecia a ele, mostrando onde gostaria de ser tocada. Vendo que ele não reagia,quase rindo,ela disse:
-Vem, que eu te ensino.
Entraram e, ao mesmo tempo, quase como um clichê de filme romântico, o temporal cessou. Pedro e Sabrina começariam uma dança que vem sendo coreografada e executada desde o começo dos tempos. E embora se julgue saber dos passos e movimentos, não há ensaio suficiente que previna as surpresas.
P.S.: A imagem que ilustra o texto é de um quadro de Jack Vettriano.