domingo, 22 de março de 2009
Pílulas de felicidade.Afinal,não se pode sair por aí sorrindo,simplesmente.Não,senhor,o mundo estranharia.Então,ela distribuía sua secreta intensa alegria ao longo dos dias. Um pouquinho pela manhã, logo cedo,no sorriso extremamente aberto do bom dia ao porteiro. Mais um pouco andando pelos corredores da firma,nas idas e vindas da sala de reuniões.Nesses momentos,tinha que ser muito cuidadosa,pois Telma, a secretária do chefe, a tinha pego em flagrante,sorrindo pro nada,e desde então, olhava-a de soslaio, e mal se aproximava dela no refeitório.A melhor hora para sorrir sem medo era a hora do intervalo para o almoço. Voltava mais cedo,pois sempre comera pouco(“feito passarinho”,como sua mãe sempre dizia) e ficava preciosos minutos a sós no escritório. Sorria feito criança abrindo presente no dia do aniversário. Sorria com o corpo inteiro,sentada na sua cadeira, pernas largadas, cabeça caindo um pouco pro lado, olhando através das imensas janelas de vidro espelhado. Sim,estava feliz, uma felicidade que a preenchia. Feliz como jamais estivera e duvidava que jamais fosse experimentar sensação tão pura como aquela,por isso saboreava-a,boca salivando à visão da sobremesa preferida. Distraiu-se mais uma vez e voltou do devaneio com o inoportuno cutucar da colega da sala vizinha. Enrubesceu, gaguejou,mas não deu pano pra manga de fofoca que a outra estava doida para costurar. Mudou de assunto,contrariada. Ah, pra que explicar? Temia que caso se dispusesse a realmente explicar as origens,os início,o meio,o desenrolar,e o resultado, o encanto passaria,e sua felicidade seria censurada,ridicularizada,quiçá diminuída.Guardou-a para si até voltar pra casa naquele dia. No trajeto,teve o cuidado de não sorrir sequer uma vez, nem quando um bebê, sentado no colo da mãe ao seu lado, no metrô,olhou-a com dois olhinhos verdes curiosos e abanou a mãozinha. Chegou em casa, o peito quase explodindo de tanta felicidade armazenada no dia. Acendou a luz,tirou os sapatos e olhou para o sofá: aí sorriu,sim,até gargalhar e foi caber, de novo,no abraço daqueles braços.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
Memória amarelada, feito fotografia velha. Então o céu varreu as nuvens do horizonte, a chuva parou e o sol apareceu tímido, enquadrado num cantinho. Pousou a caneca na mesinha. Arrumou rosto e cabelos apressadamente, espiando no espelho do corredor. Em meia hora, o trem dele partiria. E antes que a lembrança se desintegrasse ali, corroída pelo que passou, saiu. Ainda há tempo, ainda há espaço, pensou. E desta vez teve certeza, pois recebera o sinal: a chuva veio e subitamente cessou,como quando o viu pela primeira vez.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

If I kiss you again,I want to press gently my lips against yours
If I kiss you again,I want to go slowly
If I ever kiss you again,I want to taste you,so that I will always remember your flavour
If I kiss you again,I want to feel you, I want to lick your soul
If I ever kiss you again,I want to go deep,I want to know who you really are though I suspect
You wouldn’t give yourself away in just one(another) kiss
P.S.:Feito depois de assistir,de novo,a "Antes do amanhecer". =)
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
Efêmero
Rápido.Que passa numa batida de coração,num trocar de pensamento,num desviar. Mas que faz ligar uma luzinha lá dentro,uma reação, que ilumina o rosto,que faz os olhos sorrirem,ou que faz franzir a testa, baixar a cabeça,nublar o olhar. Causa impacto,sempre,mesmo que tal impacto só surja quando se está prestes a dormir,e se faz a revisão do dia. A rotina é efêmera, a vida passa tão rápido que parece querer comer a própria vida, leão espreitando e salivando atrás da presa. São os momentos,esses sim,que costurando-se um ao outro,vão formando o que vivemos e o que é hoje,para não ser amanhã ou para ser mais do hoje,ou para ser inteiramente diferente do que era há três dias. Estou divagando(e muito),relembrando os efêmeros mais recentes,e para concluir a noção de que nos efêmeros está(também) a graça,a dor,a riqueza da vida,me vem um olhar cansado e curioso,vindo de olhinhos pretinhos e brilhantes de um menininho muito bonitinho,que,exausto da viagem, se virou para mim e apesar de ser ainda muito novinho,trocou comigo um olhar de compreensão.
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
O homem do agasalho
Chova ou faça sol,esse senhor introspectivo anda sempre com um agasalho jogado sobre os ombros e costas.Ainda outro dia o vi,nesse calor do Saara que anda fazendo aqui,entrando no prédio,calça social,camisa de mangas compridas e o eterno agasalho. Mesmo aos domingos,dia universal do descanso, sua informalidade consiste em trocar as calças por bermudas,a camisa de mangas compridas,por outra de mangas curtas,mas o agasalho,este não é jamais dispensado,continua lá.
Se eu fosse fazer um exercício de imaginação sem censura,como fazemos quando somos crianças,poderia pensar,com a minha cabecinha fértil de idéias mirabolantes,que o agasalho faz parte de um disfarce,e assim o bigode,a barba e os óculos de aros grossos seriam também parte dessa sua tentativa de ocultar sua identidade secreta.Ou o agasalho teria embutidos microfones e câmeras e comunicadores a distância,e,por isso,ele o usaria sempre,para manter seus superiores informados sobre suas atividades como agente secreto. Mas meus olhos não mais olham o mundo com a criatividade solta infantil(infelizmente)e só posso pensar em justificativas nada animadoras para o uso constante do agasalho. O agasalho seria lembrança de outros tempos,de tempos bons,foi presente de um amor,ou de um parente querido,e ele hoje sendo,como me parece,solitário,usa o acessório como uma forma de não enlouquecer nessa terra inamistosa,para lembrar-se que foi amado,e amou,e viveu.
Talvez não seja nada tão mirabolante,e use o agasalho porque sente frio,simplesmente.Um frio que independe das condições climáticas e que varia e surge devido a variações internas de humor. Sabe que estranham que use sempre o agasalho, mesmo nos dias mais quentes, mas se não usasse,poderia se sentir desprotegido. Ou o agasalho virou tão parte dele,parte da persona que é reconhecida nos círculos que frequenta, que não usá-lo equivaleria a não ser quem ele é. Ah,na verdade não importa porque usa o agasalho. Talvez seja um homem bem calmo e feliz,apenas agasalhado demais. Mas não consigo não associar tristeza e abandono quando o vejo,caminhando bem devagar,e em silêncio,o agasalho quase um escudo contra o mundo.
Se eu fosse fazer um exercício de imaginação sem censura,como fazemos quando somos crianças,poderia pensar,com a minha cabecinha fértil de idéias mirabolantes,que o agasalho faz parte de um disfarce,e assim o bigode,a barba e os óculos de aros grossos seriam também parte dessa sua tentativa de ocultar sua identidade secreta.Ou o agasalho teria embutidos microfones e câmeras e comunicadores a distância,e,por isso,ele o usaria sempre,para manter seus superiores informados sobre suas atividades como agente secreto. Mas meus olhos não mais olham o mundo com a criatividade solta infantil(infelizmente)e só posso pensar em justificativas nada animadoras para o uso constante do agasalho. O agasalho seria lembrança de outros tempos,de tempos bons,foi presente de um amor,ou de um parente querido,e ele hoje sendo,como me parece,solitário,usa o acessório como uma forma de não enlouquecer nessa terra inamistosa,para lembrar-se que foi amado,e amou,e viveu.
Talvez não seja nada tão mirabolante,e use o agasalho porque sente frio,simplesmente.Um frio que independe das condições climáticas e que varia e surge devido a variações internas de humor. Sabe que estranham que use sempre o agasalho, mesmo nos dias mais quentes, mas se não usasse,poderia se sentir desprotegido. Ou o agasalho virou tão parte dele,parte da persona que é reconhecida nos círculos que frequenta, que não usá-lo equivaleria a não ser quem ele é. Ah,na verdade não importa porque usa o agasalho. Talvez seja um homem bem calmo e feliz,apenas agasalhado demais. Mas não consigo não associar tristeza e abandono quando o vejo,caminhando bem devagar,e em silêncio,o agasalho quase um escudo contra o mundo.
sábado, 3 de janeiro de 2009
Os amantes
A língua percorre um caminho já conhecido,e mesmo assim,saboreia cada curva,relevo,planície,declive...O corpo suspira,receptivo.Tendo andando e provado,a língua sai de cena,e dá lugar às mãos,que tateiam,apalpam,pegam,quase com raiva,quase como se fossem deixar cair o que têm,seguro,que preenche e incita.Já não há mais resistência,e se reconhecendo,e se permitindo,os dois corpos se encaixam,em sintonia.Às vezes um samba,outras vezes um rock,às vezes um tango,um fado,um lamento.Os olhos se fecham,para que se percam não só um no outro,mas em si mesmos,dentro daquilo que mais desejam,e que não revelam de todo,feito a ponta de um iceberg que vaga num mar junto dos outros,alguns mostrando-se mais,outros menos...Os amantes se dão.Saliva,suor,sémen,lágrima.E o que começa nem sempre é o mesmo que termina.E o que outrora se abriu,se fecha.Lacrados,em conchas,que a maré leva e traz. Voltam às suas respectivas vidas,ao que existe fora do que existe,quando eles existem,ali,só pra eles.Despedem-se,não mais despidos,mas sim totalmente vestidos,do que são,quando não mais são,ou estão juntos.E os olhos não mais se encaram,porque estão de novo ocupados em olhar para outras direções.